quarta-feira, 11 de junho de 2008

Alma Utópica 3

Gritei, implorei, rolei e a minha carne magoei. Cheguei ao meu areal, sob as estrelas cintilantes. Despi-me e na água salgada gelada me perdi, água cujas lágrimas me abraçaram. Chorei, perdi-me na imensidão do mar, as minhas lágrimas nadaram até aos confins daquele mundo desconhecido. A minha carne salguei, mas a minha lama recusou-se.Lamentos de alguém magoado, ferido, a ferros incandescentes marcado. Saí do mar feito de água para o areal de areia. A minha pele tocou a áspera superfície e de novo me deitei, olhando as estrelas. Amanheceu, entardeceu e de novo anoiteceu. Um dia, vinte e quatro horas, passados a tratar da carne. A noite. O sal. Despi-me de novo e na água voltei a mergulhar. A carne salguei, mas a alma com o sal queimei. Gritei, desesperado, a dor física insignificante para com a humana. A água abandonei, triste e magoado, atento À ferida da carne adormecida pelo gelo do mar. Lágrimas geladas desciam pelo meu corpo ao luar. Lágrimas de um choro sem Íris. Um som, movimento. Visto-me, corro, persigo. Da orla do meu areal de areia um vulto, duas Íris verdes. Congelo, ajoelho, prostro-me. Uma mulher, jovem, mas uma mulher. Salvei e perdi, nadei, salguei e recuperei. Sozinho nunca mais, a mim jurei. Deitámo-nos, olhando as estrelas. Que sensação. Naquela noite estrelada nada cruzou os céus, porque a estrela mais brilhante estava deiada a meu lado. Adormeci, sentindo o perfume do mar... Acordei. Sobressaltei-me. A areia a meu lado. Vazia. Marcadas nos grãos de areia negra estavam as formas de uma mulher divina. Desejei ser areia, para sentir o corpo do amor. Desejei ser água para invadir a areia e moldá-la. Despi-me e mergulhei. De novo salguei a carne, gemi e dorido permaneci. Sequei-me. Vesti-me. Olhei o horizonte, escurecendo as minhas Íris com as palpebras pesadas que tremiam como o ritmo do mar. Utopia, ouvi as ondas sibilarem. Abri as Íris. Um toque, leve, um sorriso, palavras. Comida. Fome. Sobrevivência. Um desafio. Nadar? Recusa. Não sabe. Como pode uma sereia não nadar e uma deusa não voar. Percorremos o areal negro. Corri. Corremos. Saltei. Saltámos. Caí. Caímos. Abracei. Abraçámo-nos. Um beijo, um toque suave. Intensidade. Paixão. Duas línguas. Calor, frio. Um toque sôfrego. Gelei e tive calor. Tremi, de medo e frio. Transpirei, de calor e paixão. Rolámos pela areia, o sol observando-nos e passámos o resto do dia perdidos um no outro, percorrendo o areal negro que se esticava perante nós, indómavel, por desbravar. Vencido pelo mar, venci a areia. Acompanhado, desbravei a imensidão que me separava daquela triste Utopia, as minhas Íris, presas em dois orbes verdes brilhantes...

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