quarta-feira, 11 de junho de 2008

Alma Utópica 1

Enquanto permanecia deitado a observar o céu obscuro povoado de estrelas e constelações um cometa cruzou os céus. No pouco tempo que o vislumbrei consegui ver cores várias, entre o magenta e o azul claro, entre o negro e o amarelo. O cometa que cruzava os céus fez-me pensar na vida. Na vida e na sua subsequente morte, com todos os problemas que viver implicava, com todos os problemas em cessar essa vida. Queria ser como o poeta, que pensava mas não sentia, ou queria ser como a ceifeira, que sentia mas não pensava. Preferi, no meio do areal vulcânico, aceitar a opinião de Pessoa: Ser feliz e pensar ao mesmo tempo. Pergunto-me muitas vezes que sentido tem esta vida que nos dá tantos desafios. E pergunto-me tantas outras vezes como seria a vida sem estes desafios. Passei grande parte daquela noite estrelada a observar o céu, à falta de melhor para fazer no meu campo de areia negra. Sem nada para me distrair abstraí-me de tudo e comecei a pensar no que o Passado havia guardado de mim. Adormeci, afundando-me nas ondas indomáveis de uma vida conturbada, nos remoinhos que me fizeram rodar em torno dos mesmos problemas tantas vezes, hoje pensando, vezes em demasia, até. Acordei, o sol batendo na minha cara, o som das ondas chicoteando a praia. Olhei o céu. As estrelas já não se viam. Agora só estava uma estrela, a maior de todas. Levantei-me lentamente, esticando o meu torpe corpo. O que vi fez a Íris deste vosso Pecador alargar-se como nunca o fizera. Estava no meu areal, mas não estava no mesmo planeta. Não acordara, pensei eu, não passava de um sonho estranho. Uma cidade crescia em altitude, banhada pelo mar. Corajosamente, ou por falta de razões para ter medo, encaminhei-me para a alta cidade. O que vi abismou-me. A sociedade daquele monumento social era perfeita, sem erros, sem a menor falha, por mínima que fosse. Senti então medo, um medo primitivo do desconhecido, de chegar a um local e de não ter alguém que partilhasse esse medo comigo. Um amigo, talvez, uma companheira, alguém, até uma qualquer fonte de ódio, uma pessoa de quem não gostasse, mas a quem me pudesse aliar contra o desconhecido. Nada encontrei além do desconhecido. Ninguém me rodeava, ninguém se via ou ouvia. Era a automatização. Havia ordem, progresso, perfeição, no fundo uma Utopia, mas faltava o mesmo que faltava à minha alma...A Felicidade. Foi então que vi as primeiras formas de vida. Iguais a mim, três homens e quatro mulheres passaram, num passo sombrio pela minha expressão abismada. Olhei-os com interesse, a minha Íris de Pecador obsevando e absorvendo todos os pormenores possíveis. Nem me olharam de lado. Não havia desdém, ainda bem, mas dava-se também a inexistência de um qualquer interesse. Fugi daquele antro da indiferença, assustado com a forma impessoal como por mim haviam passado. Procurei o meu areal negro. Para minha infelicidade, não o encontrei. Encostei-me a uma parede de um alto prédio e deixei, de forma langue, lenta, devastada e ignorada, a minha Íris fechar-se, escondendo-me na escuridão que me protegia daquela cidade Utopicamente triste.

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