
Nunca a água fora tão fresca, o vento tão fustigantemente gelado, o ar tão respirável, o areal tão negro, as ondas tão ruidosas. Caminhando pelo areal negro mantinha a minha Íris fechada, pensativo, cambaleante, desconexo e perdido, caminhando subjectivamente por terras desconhecidas. Semper fie o mar ondulava à minha volta. Mergulhei, sem tristeza. Gelei, estrebuchei, sufoquei, lutei, afoguei-me e morri. Morri, fui para o céu e voltei. Morri, fui para o céu e regressei. Morri, fui para o céu e não aprendi nada de novo. Morri e reacordei. Morri e não renasci. Soergui-me, inspirei e fui penetrado pelo ar salgado. Envolvi-me num langue beijo benevolente com o mar. Lutámos, a dor de um humano perdido contra a de um mar ignorado. Perdi, as lágrimas de sal do mar vencendo as de um humano sozinho e alheado da realidade abstracta. Vagueei, triste, incompleto, abandonado de forma quase tão Utópica quanto a sociedade que temia. Desconhecendo o que me rodeava há já algum tempo decidi, com força de origem desconhecida, conhecer o que não tinha nada de novo para conhecer. Cambaleei alegremente para trás, parecendo em overdose salgada. Remei com os pés, desbravei a areia que se interpunha entre mim e a Utopia. Morri a cada passo, ganhei vida a cada fôlego. Vivi para contar cada metro e cheguei à cidade que me assustara. Acordei, abruptamente. Encontrei o medo, a solidão, a tristeza maior. Chorei, fugi, berrei e voltei a caminhar. De volta ao meu areal, sem perigo, sem desconhecido. Vencido, pensei. Pensei e evoluí. No dia seguinte tentei de novo, aproximei-me sorrateiramente de um edifício e vi, surpreendido, uma rapariga da minha idade acorrentada a um corvo cego. Acorri, preocupado, saltei, matei e libertei. Senti-me importante, pelo menos até receber uma joelhada possante nas virilhas. Fiquei cego. Gemi e chorei silenciosamente. Arrastei-me até à porta e fui capaz de abandonar o recinto Utopicamente triste sem mais flagelos físicos.
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