quinta-feira, 4 de junho de 2009

Summer Tree




Depois de um comment tão brejeiro quanto foi o das Teorias Darwinianas - a culpa foi do Rui, a culpa é sempre dele, perguntem a quem gosta de lhe pôr as culpas em cima, eles devem (não) admitir - decidi postar a minha história favorita sobre uma personagem. Mas era enorme e teria de copiar tudo, portanto copiei apenas duas partes. Estando fora de contexto e sendo já da parte do meio/final do livro, muitos não entenderão, mas este texto não é para vocês, é para o meu "Renascimento".


(...)

"Por duas vezes durante o dia pensou que era o fim. A dor era muito grande. Estava muito queimado pelo sol, e tão seco. Seco como a terra, o que, pensara ele mais cedo - há quanto tempo - era provavelmente o objectivo. O nexo. Por vezes parecia tudo tão simples, resumia-se tuso a correspondências tão básicas. Mas depois a sua mente começava a rodopiar, a deslizar e, com o eslizar, desaparecia também toda a clareza.

Ele pode ter sido a única pessoa em Fionavar que não viu a montanha cuspir fogo. O sol era fogo suficiente para ele. Ouviu o riso, mas estava tão alheado que pensou vir de outro lado, do seu próprio inferno. Também aí lhe doía; não foi poupado.

Dessa vez, foram os sinos que o trouxeram de novo à superfície. Esteve tão lúcido durante algum tempo, e soube onde os sinos dobravam, embora não soubesse porquê. Doíam-lhe os olhos; estavam inchados devido ao sol e sentia-se desesperadamente desidratado. O sol parecia ser hoje de uma cor diferente. Parecia. Que sabia ele? Estava tão desorientado que nada podia ser tomado como certo.

Embora tivesse a certeza de que os sinos tocavam em Paras Derval. Excepto... excepto que, ao fim de algum tempo, ao escutar, pareceu-lhe ouvir também um som de harpa, e isso era muito mau, o pior possível, porque era uma coisa do seu lugar íntimo, atrás da portatrancada. Não era lá de fora. Os sinos sim, eram, mas estavam a desaparecer. Estava a afundar-se novamente, não havia onde se agarrar, nenhum ramo, nenhuma mão. Estava preso e seco, e a deslizar, a afundar-se. Viu os ferrolhos despedaçarem-se, e a porta abrir-se, e a sala. Oh, dama, dama, dama, pensou. Depois já não havia ferrolhos, nada para barrar a porta. Para baixo. Afundando-se nas profundezas.


***


(...)


Pouco depois, o trovão cessou e as nuvens começaram a dispersar.

E assim, por fim, ao final da noite, no céu por cima da Árvore do Verão, apenas as estrelas olhavam para o sacrificada, para o forasteiro suspenso nú da Árvore, apenas as estrelas, apenas elas.

Antes do romper do dia choveu outra vez, embora nessa altura a clareira estivesse vazia e silenciosa, à excepção do som da água a cair e a pingar das folhas.


E esta foi a terceira noite de Pwyll, o Forasteiro, na Árvore do Verão."
"A Árvore de Verão"
Livro 1 da trilogia A Tapeçaria de Fionavar,
de Guy Gavriel Kay
Summer Tree, oh, Summer Tree, won't you please heal me?

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